*Mônica Levi
Vivemos em um mundo onde a fantasia é incrementada e reforçada, muitas vezes, pelos nossos pais, pela televisão, novelas, cinemas, propaganda etc. E a questão é até que ponto estas fantasias podem ser favoráveis ou não às nossas vidas.
O que é fantasia ?
É uma imaginação, um devaneio, um sonho acordado. É uma obra da imaginação. Fantasia é um dos mecanismos de defesa do ego e, portanto, aparece com freqüência nos estados de frustração.
Mecanismo de defesa
É um processo mental inconsciente que possibilita ao ego livrar-se da ansiedade ou de estresse. São mecanismos de defesa a racionalização, a projeção, conversão, fantasia, generalização, repressão etc.
Acredito que a fantasia pode ser usada a partir de duas finalidades: uma construtiva, onde se imaginam coisas boas, positivas, para sentir-se bem; é uma maneira de carregar a bateria de carícias. Outra maneira positiva de usá-la é através de contos de fadas, ou seja, através disto a criança pode vivenciar todos os sentimentos de agressão e ciúme que provavelmente sentirá pelos seus irmãos, sentimentos hostis em relação aos pais que, às vezes, são sentidos como bruxos ou madrastas. Isto diminui a culpa e a ansiedade da criança, sabendo que em outro lugar, em outro tempo, outros personagens sentiram a mesma coisa.
A fantasia pode ser construtiva também quando é usada para ensaiar coisas que se querem atingir usando a espera como tempo de esquentamento. A fantasia pode ser destrutiva quando se imaginam coisas negativas para sentir-se mal, usando isto como programação para sair-se mal.
Muitas pessoas questionam: É normal ter fantasias? É. Você pode fantasiar o que puder, sabendo que é uma fabricação sua. Você pode entrar e sair dela quando quiser e não é obrigado a realizá-la. A questão quanto à normalidade é uma questão de grau: o quanto a fantasia está preenchendo sua vida ao invés da realidade.
O problema da fantasia é que ela pode estar baseada em uma ilusão e a ilusão é o engano dos sentidos ou da inteligência, é uma coisa efêmera, errada, a interpretação de um fato e a percepção inexata de um objeto ou de uma situação. Segundo Eric Berner, toda a patologia das pessoas está baseada nas ilusões que norteiam oscript da vida. Existem duas ilusões básicas: ou "papai noel" virá trazendo presentes para as vencedores (por exemplo, a mulher que espera o príncipe encantado) ou a morte virá resolver o problema dos perdedores. Este tipo de pessoa sente-se culpada ou fútil para demonstrar que a merecem. Por exemplo, a mulher frígida ou fantasias de acidentes fatais; as pessoas esperam anos pelas ilusões e, depois, se desiludem e entram em desespero, tendo neste momento quatro alternativas:
1 - Suicídio;
2 - Seqüestro da sociedade, através de hospitalização ou prisão;
3 - Ficar livre das pessoas pelo divorcio ou homicídio;
4 - Abandonar as ilusões, os jogos e entrar na realidade.
Prazer real
Acredito que o momento da desilusão, quando bem elaborado, é o momento em que se entra na idade adulta. Quando a desilusão acontece abrupta e traumaticamente, principalmente na infância, pode acarretar conseqüências sérias e decisões básicas de vida. Exemplo: gostaria de ilustrar, com caso clínico de terapia de casal, como surgiu a fantasia e como foi sendo elaborada juntamente com a terapia. Há sempre as fantasias sexuais compartilhadas em seu conteúdo pelo casal. Neste caso, o paciente relatou o conteúdo de suas fantasias sexuais que usava para ficar excitado; ele fantasiava sua parceira tendo relações com outras mulheres.
A fantasia não a estimulava, o que gerava para ele uma certa frustração e também uma culpa pelo conteúdo da fantasia. Fantasiou e propôs para sua parceira, para maior estimulação, fazer sexo grupal, o que ela não aceitou por não ser a sua opção. Subjacente a estas fantasias, o que existia nesse casal, era falta de prazer causada por disfunção sexual. Na terapia foi trabalhado o vínculo e o relacionamento deles, a fantasia de temor homossexual dele. Foi feita terapia sexual e dada permissão de poder fantasiar, que isso não é patológico.
Nesse ponto, começa a mudar o conteúdo da fantasia, ele imagina a mulher com outro homem, surge agora a figura masculina. A partir dessa nova fantasia, é trabalhado o ser espectador da própria vida, sem se permitir entrar como ator. Surge uma nova fantasia, onde ele consegue fantasiar tendo relações com sua mulher.
Foi verificado que diminuiu também a quantidade de fantasias, porque conseguiu-se entrar em contato com o prazer real e sentiu-se que era muito melhor ficar no aqui e agora do que fantasiar. Isso demonstra que, diminuindo o estado de frustração e ansiedade, não é necessário usar a fantasia como mecanismo de defesa.
*Mônica Levi é membro didata da UNAT-BR
Este artigo foi tema de mesa redonda em Congresso de AT, foi publicado no jornal da Cobrat/97 e gravado em disquete dos artigos selecionados da UNAT-BR.
Nenhum comentário:
Postar um comentário