segunda-feira, 20 de junho de 2011

Comprometida


Quando eu ia Brasil comprar pedras preciosas, costumava comprar um “pacote”. O pacote é um conjunto aleatório de pedras reunido pelo mineiro, pelo atacadista ou por quem quer que esteja enrolando o comprador. Um pacote típico contém, sei lá, talvez umas vinte ou trinta águas-marinhas de uma vez. Supostamente, comprado assim, tudo junto, sai mais barato, mas é preciso tomar cuidado porque é claro que o camarada está querendo nos passar a perna. Está tentando se livrar das pedras ruins misturando-as com algumas que são mesmo boas . “Então, quando comecei no negócio de joias”, continuou Felipe, “costumava me dar mal, porque me empolgava demais com uma ou duas águas-marinhas perfeitas do pacote e não dava muita atenção ao lixo que vinha misturado. Depois de ser enganado várias vezes, acabei ficando esperto e aprendi: a gente tem de ignorar as pedras perfeitas. Nem olhe duas vezes, porque elas deixam cego. Basta colocá-las de lado e olhar com atenção as pedras piores. Examine-as por um bom tempo e depois pergunte francamente a você mesmo: ‘Dá para trabalhar com essas? Dá para ganhar alguma coisa com elas?’ Senão, a gente acaba gastando um monte de dinheiro com uma ou duas águas-marinhas maravilhosas enterradas num montão de lixo inútil.
“Nos relacionamentos, acho que é a mesma coisa. Todo mundo se apaixona pelos aspectos mais perfeitos da personalidade do outro. Quem não se apaixonaria? Todo mundo consegue amar as partes maravilhosas do outro. Mas isso não é ser esperto. O truque esperto é o seguinte: dá para aceitar os defeitos? Dá para olhar francamente os defeitos do parceiro e dizer: ‘Isso, dá para contornar. Dá para ganhar alguma coisa?’ Porque o que é bom estará sempre ali e sempre será bonito e brilhante, mas o lixo que está por trás pode acabar com a gente.

Livro Comprometida – Elizabeth Gilbert

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